quinta-feira, 25 de maio de 2017

O cético e a moça

Quando não se acreditava em nada
tudo pareciam mentiras inventadas
a moça conseguiu lhe fazer enxergar

E viu o cético, de sorriso médio
metade do efeito é do remédio
a outra é do acreditar

Brincando com a filosofia

Eu sempre fui do tipo maluco
que tocava violão, o terror, era o rompente e o rompante
aprendi que pra tudo que eu vivia
havia uma música, talvez eu Kant

Só que aí eu entrei na faculdade
e os nomes eram mais importantes que o que se construiu ou criou
Imaginem o maluco nisso
só pensava "o bagulho tá Russeau"

E os professores doutrinaram, ou ainda doutrinam
era só academia, eu só queria a outra parte
a vida, o que nos tocava
relê, Renè, Descartes

Aí quase mudei, "eu to aí pra ler e escrever"
não dando muita bola pro que talvez aconteça
quando percebi que isso era quase nada
deu uma bagunça que Fucault na minha cabeça

Fui domesticado, sei o que eu li
mas e o que eu aprendi com o vivido?
afinal, o que é isso?
é Nietzche... ou é nietzchido?

Auliagem

Mas já pensou, que maluquice
se ser professor é na verdade viajar
e eu to viajando já faz dois anos
achando que tô parado no mesmo lugar?

A expectativa do sonho, o desejo de conhecer
a descoberta e a surpresa do que se encontrar
num bosque, numa montanha... de folhas, por que não?
E saímos correndo pra poder desobriministrar

De crescer

Onde foi o ser criança?
louco, a vida abraça e poda
me disseram que crescer era difícil
não disseram que era foda

E ainda tem que sobreviver a crise
será que amadureci?
será que eu ganhei experiência
ou, sem consciência, só vivi?

Então eu calejei os dedos
de tanto tocar na lua
de tanto sonhar mais do que viver

E ainda assim, por fim, como vencer o medo
de passar por mim na rua
e não me reconhecer?

Djavaneio total

Não consigo entender quem não entende
que, nesse caso
não entender é fundamental

Entre sinas, esquinas, lambadas de serpente
estrelas do mar, tons e dons
loucura? não
djavaneio total

De pai

Por que não queres quebrar
finges que não sente, e que se basta
que a sua vida já lhe é suficiente
e que, por si mesma, afasta

A mim, ainda tropeças e vem em prantos
pedindo um beijinho, uma mão
pra depois me desmontar dizendo
que igual a mim não tem outro não

Então não perde essa magia
essa criança é alegria
sabida que já viveu

Que o olho do mundo brilha
quando enxerga, filha
que você cresceu
O presente é um prato morno
gostoso, talvez falte um pouco de tempero
e que a gente bota pra dentro
pode até deixar restos, mas quase sempre come inteiro

O futuro é essa coisa maluca, que agonia a gente
esse eu chamo de fome
que tem dias que a gente enxerga a comida na frente
e outros que a gente tenta e tenta lembrar o nome

O passado é, devo dizer, um pouco mais complicado
pode ser um farelo esquecido
pode ser o prato gostoso, temperado
pode ser a lembrança de um gosto saboreado e vivido

Eu sei, cara, que eu to delirando
mas entra na minha cabeça, que se manda sozinha
já parou pra pensar se aquelas pessoas que vemos todos os dias
acabassem sendo os melhores chefs de cozinha?

De mim

(para minha parceira, Renata Troca)


Hoje eu procuro a simplicidade
aprendi a enxergar balé na árvore, no vento
talvez tenha parado de viver o futuro, e assim, antecipar
pra começar a saborear esse prato morno que é o momento

Talvez tenha enxergado a necessidade de sair
que a zona de conforto, na verdade, é prisão
e que tem um mundo novo na vendinha ali do lado
um universo inteiro no caminho até a fila do pão

Já pensou que coisa horrível
se perdi um mundo incrível
por me acomodar, e "ficar em paz"?

Já pensou que maldição
se os melhores poemas que saíram da minha mão
descartei por serem simples demais?

Do tempo que passa

Engraçado, o que era só madeira, hoje é edifício
e não há quem segure o tempo, pra não passar
será que olharias admirada pela rapidez?
praguejaria a falta da vista do céu, que o prédio foi tapar?

A rua parece mais vazia
com todas essas placas de vender e alugar
inclusive na tua janela fria
onde não há mais sentido pra batucar

É, o tempo passou
é, é a única certeza que temos
um dia enfim chegaremos a paz

É, tudo mudou
e eu continuo o mesmo
mas você, já não é mais

Giu.

De uma beleza macia
de um canto da boca
és das moças a mas linda
das puras, a mais louca

E de uma loucura
de um jeito me enlaça
sou teu por inteiro
sou solto, me despedaças

De uma pele branquinha
de umas marcas que amo
és dona dos meus olhos
do meu sorriso, dos meus planos

De uma fragilidade firme
de uma força extraordinária
quando choras, me mata
quando vê graça, hilária

De um amor que não me cabe mais
de um poema pro teu nome
de um grito de prazer
ou de uma explicação, que some

de uma, de única
de mim, de um
de u
giu

Não?

Hoje já relevo teus erros
teus não sei, tuas burradas
não mais pela paixão
ou não, não há mais nada

Já não há o que eu diga
já não há o que eu tenha pra pensar
se sou eu dona da minha vida
e pra onde eu decidi levar

Espero poder fazer acontecer
o que tiver que ser, será
pra eu sobreviver
pra eu não ter que me entregar

e poder dizer, sem espanto
que estou sim, superando
que hoje não dói mais
que hoje não dói tanto
que já não dói
não?

O anacronista

Camponês de calça jeans
1808 foi ontem ainda
a aula é perfeita
a calçada do canalete continua linda

Linda como o paraíso francês
onde skates não incomodam
onde vivemos a feliz revolução
onde as pessoas não se topam

Pra nossa vista
falta decoro
sobra ao pedantista

O anacronista
fala de tolo
pensa que é artista

Do sono ao teu lado

Durmo num barco
na verdade, durmo num navio
onde não sei pra onde
onde sozinho, está vazio

Durmo numa rua inteira
onde ninguém ousa passar
onde poderia correr
onde chega a doer, deitar

Durmo numa clareira
onde tanto espaço chega a me aprisionar
não encontro pra onde fugir
pois há lugar demais pra explorar

Por fim, quando estás
durmo enfim na cama
onde ao olhar pro lado
encontro o cheiro de quem ama

Mesma cama essa
que é barco, rua, floresta
quando estás, preenches
quando não, a mim não presta

Frases?

(Para um grande amigo discordante, Chomsky)


Hoje eu acordei
e da água no copo, senti o cheiro
o inodor perfume do puro
e saciei-me por inteiro

Ao sair, pela manhã
avistei um homem invisível
que conversava enfaticamente
e dizia que o mundo era incrível

A tarde, quando voltei
ouvi o silêncio da sala
onde meu peito aquieta
e minha boca se cala

E então, à noite
uma incolor ideia verde veio a mim sorrateiramente
e eu, já todo perdido
acabei dormindo furiosamente

Prova

Somos nós, o suor
a mancha no lençol, no cobertor
o revirar dos olhos
o suspiro, o arrepio, o ardor

E és tu, o que preciso
acima de tudo, o que desejo
quando morro no teu corpo
pra nascer de novo no teu beijo

Pois quando me chama
meu peito, junto do teu, inflama
e somos um, somos paixão

Pois quando nua
minh'alma enlaça na tua
e é só, é sol, é som, é explosão

Praça

Interessante movimento
da quebra verde que produzes
de animais e folhas
do teu chão e das tuas luzes

Que brigam inutilmente
contra faróis altivos e confusos
apressados, os olhos esbugalhados
uma imensidão de rostos, difusos

Coisa linda essa praça, mano
coisa linda que a gente nem percebe, não nota
já que o nosso interesse não é o admirar
mas é a pressa da rotina, da rota

Mas cá estou eu, observando, e tenho fé
que um dia todos vão poder enxergar
que a nossa praça é a Tamandaré
não a praça da Noiva do Mar

Do silêncio

Tiro nosso de cada dia
nos dai hoje mais humildade
eu percebo, com pesar
meu cachorro tem mais pra dar
que muita gente nessa cidade

Silêncio nosso de nunca, um dia
que eu possa me fechar em mim
aprender com o que eu erro
poder abrir o que eu encerro
pra só depois me soltar até o fim

Cabeça erguida, foi ontem o dia
que eu sai, ainda que não parecesse dar
graças a um estranho puxão de cabelo
não pensei que fosse fazê-lo
mas agora agradeço por aquele puxar

Crescimento nosso de cada dia
nos dai hoje continuidade
pra que eu não pare no tempo
e que os meus movimentos
sejam pra me marcar na eternidade

Agradecer, todos os dias
não a nenhum ser superior,
mas pelos verdadeiros presentes
seres humanos em mim presentes
que me ensinaram o que é amor

Olho de falcão

Forte o suficiente pra que não quebre
frágil o suficiente pra que não se feche
o que me dizes, o que me mostras
como me representas e me mexes

E talvez seja você, assim
com sua simbologia presa em colar
abraçada no meu peito
me faça mais longe, falcão, enxergar