quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pra matar a saudade

"Mas como te esquecer, se em tudo que eu vejo, vejo o brilho do teu rosto?!" Essa não foi a frase correta que ouvi, mas é o que me saltou aos ouvidos e à mente. Captei a singularidade e a beleza das palavras que adentraram meus ouvidos como quem capta um som estranho no carro do irmão. E me sentindo de volta em casa, com um vocabulário bem mais rebuscado (e que saudade dele!) resolvo de certa forma voltar à ativa, e escrever o que me dá na telha, sem medo de ser feliz. Mais uma vez aqui me desponho a mostrar à quem me lê (familiares e só) o que me acontece, mas não como realmente é, - já aviso com antecedência - mas como vejo. Até por que você há de concordar que escrever as coisas como elas são não seria tão atrativo.
Voltando ao que interessa (se é que algo aqui interessa a alguém além do meu eu escritor), ouvi essa frase, ou melhor, o que era pra ser essa frase, num filme que ainda está passando nesse momento na Globo. Romance é o nome, se não me engano. Filme genial, com o maior ator em atividade do Brasil, Wagner Moura. E falando nisso, preciso abrir um espaço desse texto para falar algumas coisas, que acabam fugindo da frase que incia o escrito. Enfim, acho necessária essa pausa.
É impressionante como até no próprio filme, que passa na própria Globo, eles conseguem retratar a diferença periclitante que há entre o teatro e as novelas. A novela veio para substituir a ida aos teatros, trazendo tramas e personagens ao alcance de uma antena. Todavia as raízes me parecem totalmente perdidas, pois o leitor há de concordar que ultimamente a TV nos mostra homens e mulheres bonitos, e aos diabos com o talento. O teatro - pioneiro de tudo isso - necessitava entrega, força de vontade, trabalho e empenho. Hoje em dia ter um rosto bonito e alguns músculos definidos parece o suficiente para se emplacar em uma novela das oito. Ainda me vejo como escritor, e aqui (meu irmão saberá melhor que eu), suponho estar escrevendo uma crônica. Enfim, o que quero dizer é: não sou um crítico. Nem de longe. De longe, sim, sou admirador da arte, em geral, e justamente essa admiração me faz ressaltar a falta de qualidade do que chamam teledramaturgia hoje em dia. Como pode um canal que passa filmes brasileiros de tão alta qualidade, e que agora vem demonstrando essa mesma qualidade em séries (como Amores Roubados, que tive o prazer de assistir esta noite), produzir novelas tão carentes de talento. E digo isso tanto por parte dos escritores, como dos atores e atrizes que dela participam. Ainda botam com certo destaque ao fim daquela tortura que é a novela os escritos "Essa obra é uma bla bla bla, bla bla bla E NÃO NECESSITA DE RELAÇÃO COM A REALIDADE." Ok, mas poderiam pelo menos se esforçar!
Tudo bem, aqui está demarcada meu breve ataque de (pelanca) fúria em relação ao que vejo na TV. Voltando ao assunto...Qual é o assunto mesmo? Bem, visto que já me perdi, e não vos minto, vou retomar do que primeiro me vem à mente: a beleza que é o teatro. Ouvi pessoas dizer, com certa firmeza inclusive, que a novela imita a vida. Não julgo-os, nem tomo-os por pessoas desprovidas de cultura, mas não há duvidas que tais indivíduos nunca presenciaram uma verdadeira peça de teatro. A novela não imita a vida, deturpa-a. Faz com que sintamos na retina a chuva de produtos que tentam nos vender, a imagem de beleza que ela nos impõe, e o pior de tudo: faz com que acreditemos que isso é normal. As novelas saem da tela para invadir a casa de quem assiste. A mãe da minha namorada (que, por acaso, não me deixa denominá-la sogra), gostou de uma porta pois era "porta de novela". Não era uma porta de novela, era uma porta chique, mas ser chique basta para parecer "de novela". Entendem como a imagem foi vendida e imposta? Além disso, a novela faz com que alguns trejeitos humanos sejam elevados a um grau alto de mais, quase inaceitável. Personificando minhas palavras, se encontra a personagem Valdirene, interpretada pela humorista Tatá Werneck. Não nego o talento da moça, que inclusive aprecio, mas seu papel já deu o que tinha que dar. Meu pai diz - e com razão - que suas cenas são sempre iguais, em ocasiões diferentes. E o pior: ela dá a entender que o brasileiro suburbano não é somente pobre, mas também desprovido de qualquer inteligencia, e usando disso ainda emplaca o bordão "Inteligencia Pura". Por favor. Salva-se daquele lixo das telas a juventude que ainda me alegra, presente na atriz que nem sei o nome, mas que interpreta a Paulinha. Essa menina ganha de goleada de mais da metade dos "profissionais" da trama. Salva-se também o papel por vezes exagerado, mas completamente bem feito de Matheus Solano, o famosíssimo Felix.
Acabei por assistir novelas antigas, e realmente, a qualidade das cenas aumentou muito, isso é indiscutível, mas como que para balancear, a qualidade dos atores despencou. Antigamente, dava-se valor a veracidade dos fatos presentes dentro da própria trama, da carga emocional que o intérprete trazia ao personagem e nos arrepiava, quando assistíamos. Hoje em dia, como nos prova muito bem o moço que faz o cadeirante da novela das seis, que basta ter um rosto bonito e um corpo sarado para estar na TV globo. Não digo que futuramente pessoas desse tipo não vão se tornar grandes atores, pois poderão, mas que entrem em novelas somente quando atingirem tal posição!
Ainda viverei para ver uma novela onde só haja pessoas feitas para a profissão. Seja na parte cômica, na parte dramática, ou até na musical. Ainda viverei para ver um programa feito aqui no meu país, mas que traga a qualidade presente lá fora. Lulu Santos disse: "Lá, eles não entendem de nada", mas disse para aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir o The Voice americano. Não desmerecendo os cantores do meu país, que eu amo, e até por isso critique tanto, mas trazendo à tona o lixo que se torna a nossa versão do programa, se comparada à versão americana. Os cenários, a duração do programa, o figurino. É como se lá assistíssemos a uma peça no museu municipal de São Paulo, e quando fossemos assistir a versão brasileira, assistíssemos uma peça da terceira série no teatro do meu colégio. Deprimente.
Mesmo assim, não sou capaz de boicotar o programa, e assisti à tudo, e como se não fosse o bastante, ainda me inscreverei para o próximo. Pretendo ver se sou capaz de chegar pelo menos até as audições às cegas. Vou me contradizer (como sempre!) e cantar músicas famosas, vendidas por novelas mal feitas, mas que talvez me façam chegar lá. Não em busca do sonho, que até já me foi apagado, mas para ver se é possível, e se conseguir, ver a máquina funcionar, por dentro. Terei que ler estas minhas palavras toda noite para não me esquecer quem sou, e não me deixar vender por completo.
Se você chegou até aqui - gostando ou não -, parabéns. São poucos os que tem saco de aguentar meus devaneios. Evito sempre deixar de ler o inicio do texto para depois voltar ao fim, e isso talvez tenha comprometido a ideia que tinha há 30 minutos atrás, peço perdão ao leitor, e culpo em parte o sono e em parte minha cabeça que insiste em querer voar separada dos dedos que digitam. E para os que se perguntaram em algum momento "de onde vem essa inspiração?", a frase que disse quase involuntariamente hoje, mas agora percebendo que foi dita por Hélio Flanders, vocalista da banda Vanguart. "A inspiração é um lugar dentro da gente, que ninguém sabe onde fica, mas todos sabem quando estão lá." Fico feliz por ter me sentido assim nesta noite, feliz por ter de volta a leve dor nos dedos de escrever tanto, e feliz por ter descarregado minha cabeça um pouco. Obrigado a você que acabou lendo isso (meu irmão, pai, mãe, namorada, e mais alguns que lerão por consequência). É, pelo menos sou realista! Tchau!

0 comentários:

Postar um comentário