terça-feira, 5 de junho de 2012

O corredor.

Abri a porta e dei de cara com um corredor. Foi o maior susto da minha vida. Eu esperava qualquer coisa, me preparara para lutar, para enfrentar os piores e mais perigosos adversários, e era só um corredor. Quer dizer, eu achava que era só um corredor.
Entrei, dei uns dois ou três passos, e aí me deu vontade de ir ao banheiro, e agora, o que faria? O corredor tinha mais de um quilômetro, e milhares de portas. Corri um pouco até achar um banheiro, achei, tinha uma criança, uns 3 anos, que tinha batido as costelas no vaso sanitário. Não dei bola, fiz o que deveria ser feito, e saí. Outro susto. Havia uma parede à minha esquerda, e o caminho de volta do corredor?!
Chutei a parede, fiz de tudo. Não funcionava. Decidi então, meio que por obrigação, a seguir em frente. Abri algumas portas ridículas. Eu acabara de chegar do trabalho, não tinha tempo para ver a mesma criança idiota o tempo inteiro, fazendo coisas igualmente idiotas. Estava de saco cheio. Ei, espera...a mesma criança? Em várias portas? Como?!
Agora eu arrombava as portas, para ver o que fazia a criança, era sempre a mesma maldita criança, rindo, chorando, brincando, esperneando...Eis que achei uma porta diferente. À minha esquerda. Abri a porta com cuidado, e, diferentemente do que fiz com as outras, entrei. Era um quarto verde. Havia uma mancha no teto, um piá de uns 7 ou 8 anos havia estourado uma pepsi ali. Ali estavam dois velhos deitados, com uma criança chorando entre eles, uma criança cabeluda, estranha, à princípio pensei ser uma garota, mas era um menino. Ele chorava baixo, a cabeça enterrada, e só o que lhe confortava era o cheiro do blusão do pai, à que ele se familiarizava.
Cansado de ver aquela cena que não andava, saí. "Ah tá! Que porra é essa?" Admito e peço perdão pelo palavreado, mas foi o que disse. Havia uma parede. De novo. Dessa vez, aparentemente mais grossa, como se conforme eu andasse, a parede crescesse junto, me acompanhando.
Fiquei ali, abrindo, fechando, correndo, me rastejando, até que parei diante de uma porta vermelha, bonita, uma maçaneta elegante, imaginei que ali deveria ser um lugar bonito e interessante. Entrei sem nem perceber quer era uma sala de aula. Ensino médio aparentemente. Vários garotos e garotas passaram por mim, entrando na sala, entrou uma professora de óculos, a turma começou a bagunçar. Menos dois alunos. Uma loira de óculos, bonita, bem bonita, e um rapaz alto, meio queixudo, que parecia estar de bem com a vida, vidrado na professora, que falava freneticamente sobre o espaço geográfico e a relação da produção capitalista com ele. Nossa, que chato, saí, e dessa vez sem sustos, a maldita parede estava ali. Desatei a correr, não pararia até encontrar uma porta interessante novamente. Achei enfim uma porta de madeira, elegante. Entrei. Um mar de mães lacrimejantes e pais orgulhosos. Formatura. Os formandos eram de letras e literatura. Aquela cerimonia linda e chata. O orador falava bem, tinha um texto bem escrito e muito bem trabalhado nas  palavras. Havia sido ele também, as melhores notas da turma, ganhando uma bolsa em Santa Catarina. Havia sido também abraçado e beijado por uma mulher alta, aparentava ser muito inteligente. Ela me lembrava alguém...não, era só imaginação minha. Ah, não tenho saco para formaturas, tchau.
Parede, corrida, blá blá blá, eu nem prestava atenção no que estava fazendo. Ei, pera aí. Uma cortina! Entrei, que diferente, acho que aqui vai ter algo que preste, que valha a pena. Que nada, acho que a coisa que eu mais odeio é cerimônia de casamento! O noivo de terno, tremendo nas bases por que ia casar, e a noiva...Nossa! A noiva era absolutamente perfeita. Com aquele ar de superioridade, contrastando com o rosto de menina e o corpo de mulher. Tirando uma cicatriz, que ele já estava habituado, a noiva não tinha defeitos.
Ah, quer saber? Casamento é um saco, vou embora daqui. Ops. Agora sim tempos uma coisa legal. A parede que habitualmente se formava havia sumido. E havia só uma porta em minha frente. Uma porta normal, de apartamento. Começou uma voz então a me falar algumas coisas, eu não entendia, mas a voz ia como que me empurrando em direção a porta. Abri meio sem querer, meio que jogado em direção à ela, e a voz se tornou compreensível, eu abri os olhos.
- Amor, não dorme no sofá, credo.
Havia sido um pesadelo, horrível. Vivi achando chato todas as minhas histórias naquele corredor. Eu bati as costelas, chorei no quarto da mãe, casei, fiz faculdade, estudei...Nem da minha esposa eu lembrava! Comecei a chorar desesperadamente. Ela, minha esposa, sem entender, me abraçou forte e perguntou o que estava acontecendo.
-Ah, querida, me prometa uma coisa: Prometa pra mim que nunca vai deixar eu esquecer quem eu sou, o que fui, o que fiz pra chegar aqui, e antes de qualquer coisa: Nunca deixe eu esquecer que você é a mulher da minha vida. Desde a época daquele cabelo volumoso e esquisito, até agora, uma mulher. A minha mulher, minha vida, meu amor.
Chorando também ela me apertou. Eu não ia esquecer, nem em pesadelo. Nunca mais.

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